Bordado modifica a rotina de mulheres de Sussuarana

Projeto artístico promove o encontro de bordadeiras da periferia de Salvador com artistas de expressão nacional para trocas coletivas Intervir no cotidiano de mulheres moradoras do bairro de Sussuarana, em Salvador, por meio da prática do bordado é o fundamento do projeto “Bordar os Sonhos – O Ponto e a Linha no Bordado Contemporâneo”, que

Bordado modifica a rotina de mulheres de Sussuarana

Projeto artístico promove o encontro de bordadeiras da periferia de Salvador com artistas de expressão nacional para trocas coletivas

Intervir no cotidiano de mulheres moradoras do bairro de Sussuarana, em Salvador, por meio da prática do bordado é o fundamento do projeto “Bordar os Sonhos – O Ponto e a Linha no Bordado Contemporâneo”, que vem sendo desenvolvido desde 2013 e que, agora, se fortalece enquanto ação com a participação de outras mulheres convidadas. Desde abril deste ano, o grupo de bordadeiras vem tendo contato com artistas que desenvolvem trabalhos relacionados à linguagem têxtil e ao desenho, para que todas se expandam no seu fazer. Neste mês de julho, para encerrar a jornada, a educadora, escritora e curadora Valquíria Prates vem de São Paulo para experimentar este convívio, em datas entre os dias 12 e 29. Todo o processo vivido ao longo do ano vai gerar uma exposição final, em data e local a divulgar.

Contemplado pelo Edital Setorial de Artes Visuais, tendo apoio financeiro do Estado da Bahia, através do Fundo de Cultura, Secretaria da Fazenda, Fundação Cultural do Estado da Bahia e Secretaria de Cultura da Bahia, com produção da Multi Planejamento Cultural, “Bordar os Sonhos” nasce da iniciativa da artista visual e psicóloga Flávia Bomfim, que oferece, há cinco anos, parte de seu tempo semanal para esta rica colaboração artística e humana. Atualmente, são 10 mulheres, com idades entre 40 e 70 em sua maioria, que se encontram todas as terças-feiras no Centro Comunitário Cultural do bairro, para criar imagens com a técnica do bordado livre, construindo suas memórias e histórias, refletindo seus lugares no mundo e empoderando umas às outras.

No intuito de qualificar a prática das bordadeiras, oferecendo-lhe contato com outras referências e experiências artísticas, além de também oportunizar às convidadas o impacto de uma relação tão intensa, “Bordar os Sonhos” já recebeu duas artistas visuais: entre abril e maio, Lanussi Pasquali (BA) e, entre maio e junho, Vânia Medeiros (SP). A partir de suas pesquisas sobre arte têxtil e desenho, elas puderam elaborar projetos e trocar conhecimentos com as bordadeiras durante um período continuado de 40 dias cada. A metodologia, a temática e os desafios de cada encontro foram definidos livremente e coletivamente entre elas, até resultar em obras, também de livres técnicas e formato, que em breve poderão ser vistas pelo grande público. Nesta rotina, ao menos um dos encontros é aberto ao público, para que mais pessoas da comunidade e outros interessados da cidade possam participar deste exercício.

E é assim que estas mulheres negras da periferia soteropolitana, aprimorando e expandindo a linguagem do bordado que aprenderam em “Bordar os Sonhos”, estão produzindo novos significados para seus cotidianos e revelando suas potências criativas. Algumas delas analfabetas, atuantes como catadoras, babás, empregadas do lar e manicures, outras desempregadas: todas reunidas enquanto indivíduos produtores de discursos e belezas.

Na ocasião da culminância do projeto, quando os trabalhos estiverem sendo expostos, serão realizadas duas oficinas públicas e gratuitas de bordado e uma palestra sobre a arte têxtil na contemporaneidade, com participação de todas as artistas envolvidas. A proposição central é refletir sobre a arte do encontro. Quem borda, principalmente quem borda junto com o outro, compreende a importância do tecimento e da criação de um fazer coletivo e integrado.