Mostra Devires segue para sua segunda etapa

Projeto de ocupação do Goethe-Institut Salvador evidencia existências dissonantes para subverter lógicas de marginalização Encarando o propósito de evidenciar as diversas facetas censuradoras da estrutura social diante de existências tidas como dissonantes, “Devires” segue em frente. O projeto artístico propõe um exercício de desnaturalização das relações entre sexo, gênero, visualidade, raça e poder e, enquanto

Mostra Devires segue para sua segunda etapa

Projeto de ocupação do Goethe-Institut Salvador evidencia existências dissonantes para subverter lógicas de marginalização

Encarando o propósito de evidenciar as diversas facetas censuradoras da estrutura social diante de existências tidas como dissonantes, “Devires” segue em frente. O projeto artístico propõe um exercício de desnaturalização das relações entre sexo, gênero, visualidade, raça e poder e, enquanto mantém em cartaz a exposição “CU É LINDO”, anuncia a programação de sua segunda temporada imersiva. De 9 a 11 de agosto, o evento, que ocupa o Goethe-Institut Salvador-Bahia, numa programação gratuita, apresentará mais quatro performances, uma mesa de debate e uma oficina, na perspectiva de fazer da arte instrumento de questionamento e fortalecimento mútuo, afirmando a diversidade de corpos, defendendo sua liberdade e urgindo pela dignidade de vozes silenciadas.

Contemplado pelo Edital de Dinamização de Espaços Culturais, com apoio do Fundo de Cultura, “Devires” faz da sua casa o Goethe-Institut, que tem sido um dos espaços mais potentes do exercício artístico na capital baiana, promovendo atividades e oferecendo suporte a iniciativas de variadas espécies, na defesa da liberdade de expressão. O projeto teve sua primeira etapa de 12 a 17 de julho e se finalizará com mais um período de ação de 27 a 29 de setembro. “Devires” tem orçamento total, para os seus três meses, distribuído em todos trabalhos artísticos, produção e infraestrutura, de R$ 131 mil, conforme aprovado no edital público, mecanismo democrático de fomento a práticas artístico-culturais de toda a Bahia.

A mostra se fundamenta, essencialmente, em transgredir, transmutar e subverter qualquer ação que aprisione identidades e personalidades. O não-lugar dos desviantes das lógicas hétero e cisnormativas, o machismo, o patriarcado e o racismo são pontos que recortam os trabalhos. Indivíduos inclassificáveis na militância artística por uma cidadania mais coletiva e por uma micropolítica que possa ir penetrando, dia a dia, nas condições de autonomia, intimidade e proteção de todos e todas.

A curadoria de Paola Marugán e Juliana Vieira traz, portanto, o corpo para o centro do discurso, abrindo olhar para outros mundos possíveis.

PROGRAMAÇÃO – Nesta segunda etapa, o feminismo e o feminismo negro tomam lugar de destaque. No dia 9 de agosto, às 19h, as atividades começam com a performance “Bonecas”, de Silvânia Cerqueira/Coletivo Ventre Livre (BA), seguida, às 20h, de “Numbra”, de Ana Lira (PE). No dia seguinte, 10 de agosto, Michelle Mattiuzzi (SP/BA) performa “Há Guarda o Grão”, em dois momentos: às 18h, no Porto da Barra, e às 20h, no Goethe-Institut. No sábado, haverá a mesa de debate “Corpos políticos, afetos e resistências feministas”, reunindo Keila Simpson (BA), Michelle Mattiuzzi (SP/BA) e Sanara Rocha (BA), com mediação de Lais Machado (BA). Para encerrar, às 16h, vem a performance “Passado a Limpo”, de Grasiele Sousa (SP). Aberta em julho, com visitação continuada até 11 de agosto, a exposição “CU É LINDO”, de Kleper Reis (MS), completa a grade artística. Há ainda a oficina “Mata borrão: um experimento para não adoecer o corpo”, ministrada por Michelle Mattiuzzi (SP/BA), com 30 vagas, nos dias 9 e 10, das 9h às 13h.

MOSTRA DEVIRES Etapa 2
www.mostradevires.com
Onde: Goethe-Institut Salvador-Bahia (Av. Sete de Setembro, 1809 – Corredor da Vitória)
Quando: 9 a 11 de agosto de 2018
Realização: Giro Planejamento Cultural

Exposição
CU É LINDO, de Kleper Reis (MS)
Até 11/8, seg a sáb, 9h às 19h Classificação indicativa: 18 anos
O profícuo suspirar de um mergulho nas raízes que suscita a aceitação do si mesmo. A emoção de lidar com a censura, as memórias das violências e dos espancamentos sofridos, as discriminações e os preconceitos sociais, as imagens do inconsciente e as notícias diárias.

Performances
Bonecas, de Silvânia Cerqueira/Coletivo Ventre Livre (BA)
9/8, 19h Classificação indicativa: 16 anos
“Bonecas”, no plural, vem para mostrar a multiplicidade de elementos doutrinadores que compõem as diferentes mulheres, a docilidade e a angústia de nossa domesticação, segundo pensamento de Foucault. “Bonecas” que, de dentro da bolha da existência, resistem para sobreviver aos mecanismos disciplinares de poder que diminuem a força político-ideológica.

Numbra, de Ana Lira (PE)
9/8, 20h Classificação indicativa: Livre
Vivência performática para articular uma dinâmica de compartilhamento e escuta sobre invisibilidade como ferramenta de poder. Em que cenários estar nas entrelinhas pode nos ajudar a fortalecer as articulações coletivas?

Há Guarda o Grão, de Michelle Mattiuzzi (SP/BA)
10/8, 18h, no Porto da Barra; 20h, no Goethe-Institut Classificação indicativa: Livre
Caminhar com os pés descalços, o ponto de partida é a areia do mar. Seguir o caminho pelo asfalto, 64kg de areia será deixado como rastro. O que sobrar será guardado em potes de vidro.

Passado a Limpo, de Grasiele Sousa (SP)
11/8, 16h Classificação indicativa: Livre
A artista recebe o público para uma conversa sobre mulheres e trabalho. Quais são as atividades, tarefas, ocupações que elas realizam no dia a dia? A artista desempenha as ações de passar e limpar como uma situação pública e convidativa ao debate sobre memória e esquecimento, preservação e condição de acesso à história das mulheres.

Mesa de debate
Corpos políticos, afetos e resistências feministas, com Keila Simpson (BA), Michelle Mattiuzzi (SP/BA) e Sanara Rocha (BA). Mediação: Lais Machado (BA)
11/8, 14h Classificação indicativa: 18 anos
De que maneiras os corpos resistem ao exercício do poder que é basicamente homogeneizante e individualizante? Uma conversa sobre corpos políticos des-ajustados à norma, que estão expandindo os limites do pensável e resistindo aos aparelhos disciplinários que produzem verdade. Tais resistências estão profundamente conectadas com a dimensão afetiva enquanto veículo que organiza a raiva e a converte em potência.

Oficina
Mata borrão: um experimento para não adoecer o corpo, com Michelle Mattiuzzi (SP/BA)
9/8 e 10/8, 9h às 13h 30 vagas. Inscrições no site.
Pensamentos sobre uma cartografia em que corpxs dissidentes e racializadxs atravessam o espaço pela perspectiva sócio-histórica dos seus respectivos contextos, encarando as precarizações do mundo e as mudanças políticas. Serão apresentados filmes, fotografias e vídeos-perfomances de artistxs negrxs e racializadxs. A obra como ato político, a produção crítica sobre a obra e as suas dimensões políticas de não ser apagado pela estrutura normativa. Quais são os caminhos da autoria dissidente negrx e racializadx na contemporaneidade? Há o descentramento da branquitude nos processos colaborativos e espaços políticos de atuação que propõe abrigar as discussões dos corpos racializados?